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Dias atrás assisti a um filme chamado Gran Torino, sob a direção de Clint Eastwood. O filme é sobre um senhor que participou da guerra da Coréia, não é amado por sua família, tem vizinhos asiáticos sobre os quais ele tem enorme preconceito e dificuldade de relacionamento, enfim, um bom drama. Ao longo da história ele ajuda os seus vizinhos contra uma gangue de jovens. Numa atitude um tanto impensada ele desafia a gangue, e esta em represália ataca novamente os seus vizinhos. Diante desse quadro, o nosso herói de guerra toma uma decisão inesperada e totalmente improvável: ele dá a vida pelos seus vizinhos. Desculpe-me se contei o filme para você. Mas, como falaremos de amor, achei esse filme bastante propício para nossa reflexão.
O amor vence várias barreiras. Uma delas foi é a do preconceito.
“Aquele que diz que está na luz, e odeia a seu irmão, até agora está em trevas. Aquele que ama a seu irmão está na luz, e nele não há escândalo, mas aquele que odeia a seu irmão está em trevas, e anda em trevas, e não sabe para onde deva ir; porque as trevas lhe cegaram os olhos.” (I João 2:9 – 11). O amor é capaz de iluminar os corações, a ponto de vencer preconceitos e nos fazer enxergar que Deus nos criou totalmente diferentes uns dos outros. Destrói a soberba, a mentira da suposta superioridade racial e dissipa os conflitos, em nome do bem-estar do próximo. A luz do amor nos guia levando-nos a dignidade e resgatando o propósito pelo qual fomos criados: para a glória de Deus.
O Senhor nos criou à sua imagem e semelhança. O que realmente significa isso? Significa que cada um de nós deveria representar o próprio Criador. Todas as pessoas que nos vissem, automaticamente deveriam lembrar-se de Deus. Infelizmente, “todos pecaram e destituídos estão da glória de Deus” (Rm 3:23). A única solução para o homem é “nascer de novo”. Só Jesus Cristo pode resgatar a imagem e a semelhança de Deus no homem.
Agora, uma perguntinha pra você: qual a principal característica dessa imagem e semelhança de Deus no homem? Será que é a santidade? Será que é a sabedoria? Será que é a justiça? Cristo tem a resposta: “Um novo mandamento vos dou: Que vos ameis uns aos outros; como eu vos amei a vós, que também vós uns aos outros vos ameis. Nisto todos conhecerão que sois meus discípulos, se vos amardes uns aos outros.” (João 13:34-35). Essa é a principal marca do cristão, o amor. O amor traz em si a santidade, a justiça, a fé, a esperança, a sabedoria, enfim, parafraseando o apóstolo João em (I João 4:8), o amor é a essência de Deus.
Wayne Grudem, teólogo reformado, tem uma boa definição do significado de amor: “o amor é a doação de si mesmo em favor de outras pessoas”. A principal característica da corrupção do gênero humano é o egoísmo. É isso mesmo amigo, não adianta fugir. Somos egoístas sim. Queremos o melhor para nós e nossa família. Dentro do casamento competimos com nosso cônjuge e às vezes até com nossos filhos. O velho ditado “farinha pouca, meu pirão primeiro” vale em quase todas as situações. E além do egoísmo, aparecem outros vilões: o orgulho, a soberba, o sentimento de que estamos num nível de espiritualidade superior aos demais.
Ás vezes nosso egoísmo é tanto que não conseguimos fazer simples favores. Há poucos dias atrás tive dificuldade para colocar uma simples carta no correio. Existia alguma dificuldade nisso? Sim. A carta não era minha, não era para nenhum conhecido meu, enfim, que interesse teria eu em colocá-la no correio? Eu teria vantagem em levar aquela carta ao correio? Por favor, não se assuste. Esse que vos escreve também não é um “amor de pessoa”, na verdade é um tremendo egoísta que só consegue colocar uma simples carta no correio quando “o Espírito Santo derrama amor em seu coração” (Rm 5.5).
Vejamos a seguinte premissa: falta de amor, significa ausência de Deus. O egoísmo é a falta de amor; logo o egoísmo é a ausência de Deus. Em outras palavras, sempre que fazemos qualquer coisa de forma egoísta é porque não seguimos a luz de Deus. Escolhemos as trevas, entristecemos o Espírito Santo e aborrecemos nossos irmãos, nossa família, etc.
Normalmente todo ensino sobre o amor nas nossas igrejas, ensina-se as quatro expressões (de origem grega) ou dimensões do amor: ágape, phileo, storge e eros. A impressão que eu tenho é que ensinamos um “amor grego”, ou seja, um amor só de palavras. Imagino o apóstolo João assistindo nossas aulas e dizendo: “Meus filhinhos, não amemos de palavra, nem de língua, mas por obra e em verdade.” (I João 3:18). Acredito que deveríamos ensinar fazendo. Nossas aulas sobre amor poderiam ser nos hospitais, nas cadeias públicas, nos orfanatos, nos guetos, nas ruas, nas sarjetas, etc. Só assim venceríamos o preconceito, a falsa humildade, a soberba, a arrogância, a hipocrisia e outros males. Aprenderíamos e exercitaríamos o amor com eles, sentindo o que eles sentem, alegrando-se e chorando com eles. Assim, realmente daríamos nossas vidas por eles.
O Cristianismo só existe até hoje por causa do amor que as comunidades verdadeiramente cristãs demonstraram ao longo da história, capacitadas pelo próprio Cristo. O amor não permitiu que os cristão morressem de inanição na grande fome que se estendeu pelo império romano. Fez com que construíssem comunidades onde repartiam seus bens. O amor é capaz de pacificar guerras; impulsionar jovens de todas as classes a saírem da zona de conforto a fim de evangelizarem os lugares mais longínquos do mundo; fazer com que missionários dividam seus modestos salários com as pessoas ao seu redor, motivar profissionais de todas as áreas a darem o melhor de si, a fim de promoveram o bem-estar daqueles que foram criados à imagem e semelhança de Deus. Ele é a base dos direitos humanos, da ética, da Cruz Vermelha, de tantas ONGS existentes no mundo afora para tornar esse mundo melhor.
Como disse Henry Drumonnd, seremos julgados por nossas atitudes de amor ou não. Isso é sério. Dificilmente pensamos o quão importante é darmos atenção as pessoas, servi-las, tratá-las com dignidade, amor, respeito. O que costumamos fazer é tratar bem quem nos trata bem e dar as outras pessoas o que achamos que elas merecem.
Meditemos nas palavras de Cristo (Mateus 25:34-46):
“Então dirá o Rei aos que estiverem à sua direita: Vinde benditos de meu Pai, possuí por herança o reino que vos está preparado desde a fundação do mundo;…
1)Porque tive fome, e destes-me de comer;
2)Tive sede, e destes-me de beber;
3)Era estrangeiro, e hospedastes-me;
4)Estava nu, e vestistes-me;
5)Adoeci, e visitastes-me;
6)Estive na prisão, e fostes ver-me.
…. Então dirá também aos que estiverem à sua esquerda: Apartai-vos de mim, malditos, para o fogo eterno, preparado para o diabo e seus anjos;
1)Porque tive fome, e não me destes de comer;
2)Tive sede, e não me destes de beber;
3)Sendo estrangeiro, não me recolhestes;
4)Estando nu, não me vestistes;
5)E enfermo, e na prisão, não me visitastes.
…Então eles também lhe responderão, dizendo: Senhor, quando te vimos com fome, ou com sede, ou estrangeiro, ou nu, ou enfermo, ou na prisão, e não te servimos? Então lhes responderá, dizendo: Em verdade vos digo que, quando a um destes pequeninos o não fizestes, não o fizestes a mim…”
Fico pensando se por acaso o herói do filme fosse um “evangélico” dos dias de hoje. Será que ele teria coragem de visitar vizinhos asiáticos que acreditavam em outros deuses? Será que não usaria o Salmo 1:1 (bem-aventurado o homem que não anda segundo o conselho dos ímpios, nem se detém no caminho dos pecadores, nem se assenta na roda dos escarnecedores) como desculpa para fechar os olhos ao sofrimento alheio? Talvez usasse a sua arrogância “evangélica” (ou gospel, você escolhe) para dizer que era melhor do que os seus vizinhos, pois servia a Jeová e não a outros deuses. Talvez ao invés de dar a sua vida pelos vizinhos, promovesse uma “campanha de oração”, aguardando que Deus tomasse providências e fizesse a polícia acabar com a gangue. Talvez ficasse implorando a Deus para que mandasse poder para tratar com seus inimigos, sendo o amor a maior expressão do poder de Deus. A maior expressão desse poder aconteceu na cruz, quando Jesus Cristo foi crucificado.
E se fosse você? E se fosse eu? O que faríamos? Daríamos nossas vidas? Ou daríamos de ombros dizendo não tenho nada a ver com isso; não é da minha conta, etc. Precisamos amar. É o mandamento. É a luz de Deus em nós. É o caminho. É a verdade. É a vida.
Elias Silvio
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